Ver

20150402_Vendo
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Ver
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VER VENDO
OITO LARA REZENDE
… De tanto ver, a gente banaliza o olhar. .. Vê não-vendo …
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver …
Parece fácil, mas não é …
O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade …
O campo visual da nossa rotina é como um vazio …
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta …
Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe …
De tanto ver, você não vê …
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio de seu escritório …
Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro …
Dava-lhe um bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência …
Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer …
Como era ele?
Sua cara?
Sua voz?
Como se vestia?
Não fazia a mínima ideia .
Em 32 anos, nunca o viu .
Para ser notado, o porteiro teve que morrer …
Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que também ninguém
desse por sua ausência …
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem …
Mas há sempre o que ver. ..
Gente, coisas, bichos …
E vemos?
Não, não vemos …
Uma criança vê o que um adulto não vê …
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo …
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê …
Há pai que nunca viu o próprio filho …
Marido que nunca viu a própria mulher (e desconhece os seus segredos e desejos), isso existe às
pampas …
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos …
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Colaboração:
Patrícia Teberga
Pindamonhangaba-SP

É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença …

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