Dalva 92

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Querido Eudison
Embora um pouco estressada em virtude dos exames de saúde a que estou me submetendo, resolvi lhe escrever para pedir que leia, corrija e se valer, publique a historinha, real, que ora relato.

“Animada pelo convite para que contemos historias, resolvi, em homenagem a minha família, fazer o relato de um fato ocorrido ha exatamente 45 anos e que até hoje, me abala.

Procurarei ser objetiva.

Sobrevivente de uma família composta de 10 irmãos, em breve, se Deus quiser, completarei 92 anos, muito bem vividos e não posso perder essa oportunidade oferecida por você.

“Em abril de 1970, eu e uma de minhas irmãs viajamos juntas para uma festa de comemoração de casamento de um dos nossos irmãos, que como os demais familiares, moravam numa longínqua cidade do Norte do Pais.

Foram cinco dias de muita alegria.

A festa foi linda e nós duas, muito homenageadas.

Na véspera de nosso retorno a São Pulo, fomos dormir exaustas e eufóricas com o retorno aos nossos lares.

Minha irmã tinha marido e 3 filhos; eu, quatro filhos bem jovens e que nos esperavam ansiosamente.

Exatamente as 4 da manhã, nós duas acordamos com um pesadelo simultâneo.

Acendemos a luz e ambas estávamos lívidas de pavor.

Instintivamente nos abraçamos e agradecemos a Deus estarmos juntas naquele momento.

Passado o susto, minha irmã falou: Graças a Deus você me acordou pois eu estava sonhando estar num lugar
estranho, imenso e me sentia perdida. Procurava segurar minha cabeça.

Respondi-lhe que também, estava sonhando estar perdida no meio de uma multidão desconhecida e como estava nervosíssima, alguém me falou; ”calma, senhora; precisamos saber o nome e o numero dos aqui presentes” . Desnecessário dizer que, não conseguimos mais dormir pois nossa viagem estava marcada para as 9 horas daquele dia.

Embarcamos normalmente e após 20 minutos da decolagem, o piloto avisou pelo microfone que estávamos retornando ao aeroporto de origem, em virtude de avaria em um dos motores mas que ficássemos tranquilos, porque todas as providências haviam sido tomadas.

Nosso pavor foi grande e em seguida sentimos o choque no chão.

Gritos, choro e o barulho do avião eram aterradores mas percebi certa movimentação na cabine de comando e quase arrastando minha irmã que estava em estado de choque, fomos naquela direção e deparamos com o Piloto, livido e falava nervoso: rápido, rápido e nos empurrava em direção a uma corda que estava amarrada na cadeira de comando e nos levava diretamente para fora do avião, que nessa altura estava praticamente, todo em chamas.

Fomos as últimas a sair para em seguida o avião explodir matando quem ainda estava lá.

Fomos levadas para um local onde já se encontravam outros sobreviventes e que alguém pedia muita calma a todos, pois precisavam saber O NOME E NUMERO DE SOBREVIVENTES….

Até hoje, me pergunto: Foi premonição ou apenas coincidência? Propositalmente omiti que o avião era da FAB.

O acidente foi publicado na Folha de São Paulo, entre os dias 20 a 30 de abril de 1970.

Com o choque, esqueci o dia do acidente e passei a sofrer de insônia, até hoje.

Perdoe os erros, pois como pode imaginar esse assunto mexe comigo e se der para aproveitar alguma coisa, fique a vontade.

Beijos e Feliz Pascoa para todos.
Dalva Nunes
Brasília DF em 29março2015

2 comentários sobre “Dalva 92

  1. Professor;muito obrigada.Foi ótimo ter contado a historinha,porque desabafei.
    Todos s dias, aprendo algo com você e nossa Cris. Obrgada, obrigada e OBRIGADA

  2. Lembro-me de a Dalva ter me contado essa história em 1994, quando fiquei hospedada na casa dela em Brasília. A irmã a que ela se refere, no caso, é a minha avó Francisca e, portanto, uma pessoa que foi muito presente e importante na minha infância e adolescência. Graças a Deus elas sobreviveram, pois caso contrário, não teria sequer tido a oportunidade dessa convivência!!!

    Também me recordo especificamente do detalhe da avó Francisca ter ficado absolutamente paralisada e que, em determinado ponto, a Dalva chegou a voltar para resgatá-la, fato que a Dalva omitiu no seu relato talvez evitando auto-enaltecer-se.

    Desejo que os 92 anos da Dalva sejam repletos de muita saúde e alegria!!! E que ela possa continuar nos contando muitas histórias, pois tenho certeza de desconhecer a grande maioria delas…

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