Revelação Espiritual

20150308_Revelação_Espiritual
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Revelação Espiritual
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Eu e a Rita vivemos debaixo do mesmo teto durante 45 anos. Tivemos três filhos, e a vida correu tão célere que nem percebi o tempo passar. Sinceramente, nunca presenciei tamanha grandeza de caráter e uma tão grande vontade de servir o bem. Tanto que confesso, realizei alguma coisa em prol do meu próximo levado pela força de seu exemplo.

As crianças que moravam na favela ao lado da nossa casa viam em Rita a sua grande confidente. Eu achava incrível a facilidade que ela tinha para lembrar-se das datas de aniversário daqueles piralhos.
Mas a nossa Rita começou a emagrecer…
A enfermidade implacável chegara e, aos poucos, foi consumindo o seu pequeno corpo físico.

Depois de passar por invasiva cirurgia, fora chamada a frequentar o hospital do câncer para fazer os exames periódicos. Durante essa fase, travou conhecimento com as crianças que portavam a mesma doença e passou a visitá-las, sempre levando na sacola remédios, doces, alimentos e brinquedos.

Uma menina chamada Kaiwane, na tentativa de retribuir os agrados feitos pela vovó branca (chamava-a assim), realizava desenhos em uma folha de papel e os entregava para a Rita, dizendo que desenhara aquelas figuras em sua homenagem.

Num dia tão diverso daqueles que compuseram os 45 anos de convivência, ela fechou os seus olhos magnânimos, e os nossos olhos, então… nem vale a pena comentar…
Seu corpo estava sobre a lousa fria quando chegou Kaiwane trazendo nas mãozinhas a folha de papel rabiscada com as respectivas figuras. Olhou desconfiada para o meu filho caçula, e foi quando ele a informou que a vovó branca houvera partido para o outro mundo.

A menina olhou para os lados como se estivesse em busca de uma solução e, como nada encontrara, ergueu a folha com os desenhos e a colocou sobre o peito da amiga e benfeitora.

Cinco meses depois…
Viajei com minha filha e minha neta para Brasília e ficamos hospedados na casa de amigos.

Companheiros de longa data conheceram a Rita desde os primeiros tempos, pois estávamos sempre nos visitando e realizando passeios juntos.
Naquele dia em especial, as lembranças afloraram generosas. Comentei com eles a dedicação da companheira Rita que, apesar de fragilizada pela enfermidade, dera andamento a toda à papelada de minha aposentadoria, deixando, porém, os referidos papéis em local para mim desconhecido.

Anoiteceu e me recolhi ao leito cerca das 23 horas, e penso que foi por volta das 3 horas da madrugada quando alguém se aproximou do meu leito e indagou:
– Está com muitas saudades dela?

Sem identificar o visitante respondi:
– Você nem imagina o quanto!
Para meu espanto, a criatura desconhecida, estendendo em minha direção um ‘’telefone sem fio’’, disse:
– Então converse com ela!
De imediato, percebi que o meu pranto umedeceu o travesseiro. Coloquei o fone no ouvido e identifiquei de pronto aquela voz macia dizendo:
– Oi velho, como está?
A princípio, a minha voz não saiu, e ela prosseguiu como se entre nós houvesse um cânion, pois, enquanto ela falava, um eco repetia as suas frases:
– De minha parte, estou ótima, pois os nossos irmãos espirituais foram maravilhosos, ajudando-me a sair das mazelas enfermiças que me incomodavam logo no início de minha chegada!

Dialogamos por cerca de 15 minutos e ela, ao final, depois de enviar mil beijos aos filhos e amigos, disse:
– Sabe aquela mala velha em cima do nosso guarda-roupa? Puxe-a e você encontrará atrás dela uma pasta verde onde estão todos os papéis referentes à sua aposentadoria.
Dez dias depois…
Retornamos à cidade de São Paulo, e eu conversava com minha filha quando ela me advertiu quanto aos cuidados que eu deveria tomar em relação à minha aposentadoria.
Lembrei-me do ‘’sonho’’…
Subi os degraus da escada, pois moro num pequeno sobrado. Abri a porta do guarda-roupa e retirei a mala grande. Em seguida, alcancei a pequena pasta verde e, quando fiz correr o seu zíper, vi os documentos que tanto havia procurado… Você já viu como é feio… um velho chorando?

Álvaro