Preciso de você

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Preciso de você

A ERA CIBERNÉTICA TRANSFORMOU A SOCIEDADE MODERNA, MAS, PARADOXALMENTE, AO CONTRÁRIO DO QUE PARECE, NA ERA VIRTUAL, A PRESENÇA FÍSICA DO OUTRO É AINDA MAIS FUNDAMENTAL

A jornalista me pergunta impressionada a razão de novas pesquisas constatarem que, contrariamente ao que muitos esperavam, o povo da internet cada vez mais associa seus passeios na rede com a necessidade de estar junto.

Esse fato relativiza as críticas morais que bradam ameaçadores avisos anunciando que o mundo estaria perdido, pois a WWW (World Wide Web) seria uma teia perigosíssima que estaria aprisionando nossa pobre juventude, em um isolacionismo narcisista e emburrecedor.

Essa notícia chega ao mesmo tempo em que o papa se precipita em condenar um aplicativo para smart-phones, por meio do qual o fiel antenado se confessaria on-line, sem a necessidade de se ajoelhar na madeira dura de um confessionário escurecido por muitos pecados ali penitenciados. Ao menos dessa vez, ufa!, o papa mostrou que “tá ligado”, pois a web não substitui a presença física.

Na mesma vertente, podemos falar da repetitiva pergunta se é possível fazer análise por Skype, ou serviço semelhante, sem ter de se preocupar com o terrível trânsito das grandes cidades, bem como se garantir em ter seu analista à mão, ou melhor, na tela, entre um mergulho e outro, em uma ilha paradisíaca, do outro lado do mundo.

Não dá.
Há um quê na presença física que é insubstituível.

E se dizemos “um quê” é exatamente pelo fato de não podermos precisar o que é isso da presença física que não sabemos traduzir em nenhum idioma e por nenhum meio, razão pela qual não a podemos substituir, pois, como celebrou Michel Foucault: “a palavra é a morte da coisa“; se falamos de algo, substituímos o algo pela palavra e não precisamos mais dele.

Em um mundo que quebrou os paradigmas cartesianos de espaço e tempo, jogando-nos no furacão do ilimitado sem fronteiras, não há nada a estranhar na necessidade da presença física do outro, do corpo do outro, do seu enigma, do cheiro, cor, som, movimento, textura, olhar, que não sabemos traduzir em bytes.

Esse enigma do outro é o remédio para a angústia tão atual, por nos termos visto transformar em habitantes de lugar nenhum.

Seis mil moças e moços geeks se acotovelaram por uma semana, em São Paulo, em uma festa chamada Campus Party. Seis mil! Em um pavilhão de exposições. É tão importante estarem juntos, que um nipo-brasileiro, morando ao lado do local da festa, trocou o conforto de seu quarto por uma tendinha de campanha, verdadeiro elogio do desconforto.

A presença do outro nos remete ao mais essencial de nós mesmos.

Se fôssemos honestos, parodiando Vinícius, jamais diríamos expressões do gênero: “no meu íntimo”. E isso porque o que nos escapa é exatamente o nosso íntimo. Diríamos, melhor, como Lacan: “no meu êxtimo”, sim, porque o meu íntimo me é tão estranho – quem já passou por uma análise sabe bem o que estou descrevendo – que melhor chamá-lo de êxtimo, clara alusão ao estranho e ao externo de si mesmo, que habita cada um.

Podemos nos livrar de muita coisa na vida, mas não da gente mesmo, em especial desse ponto íntimo desconhecido, promotor de nossas paixões, essa força estranha vivida na sensação do “mais forte que eu”. A presença física do amigo, do amado, do familiar, do próximo, nos reconecta com esse ponto fundamental, âncora de nossas existências, ponto transcendente de nossa imanência, se quisermos nos valer do discurso da Academia.

Nesse mundo de aparente “tudo pode”, e de “em tudo estou”, não por isso devemos nos assustar que ao lado do aumento dos acessos aos meios virtuais, vejamos crescer em paralelo os lugares de encontro físico, sejam eles campus parties, igrejas, consultórios, bares, cruzeiros. Os motivos são variados e o que neles se realiza, também, mas a necessidade é uma só: estar junto. Na era da pós-modernidade, onde o laço social das identificações é predominan- temente horizontal, nos damos conta que o principal afeto, o mais fundamental afeto, é o da amizade.

Cada pessoa precisa de alguém que a ajude a chamar o seu êxtimo, de meu íntimo…
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Autor:
Jorge Forbes é psicanalista e médico psiquiatra. É Analista Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (A.M.E.), preside o IPLA – Instituto da Psicanálise Lacaniana e dirige a Clínica de Psicanálise do Centro do Genoma Humano da USP.
Site: http://www.jorgeforbes.com.br/
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Fonte:
Revista Psique
Ano VI número 63
http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESCV/
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Publicado em SinapsesLinks:
https://sinapseslinks.wordpress.com/
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Nota do Leal:
Desde o início do meu blog, 21julho2006, ênfase tem sido dada à Amizade!!!
Amigo e Amiga visitantes deste blog, te dedico esta mensagem.
Fraternalmente,
Leal – aprendiz em todas as instâncias da Vida
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Texto disponível em PDF. Click aqui. Grato.
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3 comentários sobre “Preciso de você

  1. Realmente a amizade nos une, um laço de compreensão e amor nos fortifica e juntos trabalhemos para algo realizar, sem dúvidas os elos de amor estão a se estreitar…

  2. Eudison eu também prfeciso de vc, mesmo não o conhecendo sinto esta aura leve que te envolve, e ao meu parecer, eu acho que o sr. é muito feliz juntamente com a sua familia. É esta a impressão que o sr. me passa. Obrigada. eu Tereza Cabbaz Bicudo

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