Alforria do John

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De pernas para o ar

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Na confusão da boate, uma morena de saia justa parou desafiadora diante dele e sorriu
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UM CONGRESSO no Rio e uma visita à boate Help viraram de pernas para o ar a vida do cientista britânico.

John nasceu há mais de 50 anos numa cidadezinha no norte da Inglaterra. Neto de um pastor anglicano, foi criado dentro dos princípios rígidos da educação inglesa daquele tempo, que lhe custaram disciplina férrea em casa e oito anos de internato em colégio religioso, para onde foi mandado assim que nasceu a irmã caçula.

Tinha cinco anos de idade quando o pai o deixou na sala do diretor do colégio com uma malinha de roupas e um nó na garganta. Só conseguiu conter o choro por causa do ar de reprovação antecipada estampado no cenho do progenitor.

De terninho e gravata, assim que tocou o sino do recreio no primeiro dia de aula, louco de vontade de urinar, perguntou a um colega mais velho onde ficava o banheiro. De maldade, o menino disse que costumavam ir atrás de uma árvore próxima. Morto de vergonha atrás do tronco, enquanto os coleguinhas riam e apontavam para ele, John foi agarrado pelos cabelos pela supervisora de disciplina e espancado com uma régua de madeira, companheira inseparável da educadora.

Quando contou que o local havia sido indicado pelo aluno mais velho, a mulher não teve dúvidas: largou-o com as pernas cheias de vergões, agarrou o outro menino pelos cabelos e repetiu a cena de espancamento didático.

Formar-se em medicina foi um custo. Não que lhe faltasse interesse, era fascinado pelos processos biológicos envolvidos no funcionamento das células, sua dificuldade era com a clínica: não tinha a menor vocação para lidar com doentes. Dizia que se não fosse necessário conversar com eles nem aturar suas famílias, de bom grado teria se dedicado à infectologia; diante da perspectiva contrária, no entanto, escolhera relacionar-se com os vírus, seres infinitamente mais silenciosos.

Ao receber o diploma, mudou-se para Cambridge, contratado para trabalhar com vírus causadores de câncer em seres humanos e outros animais. Pesquisador talentoso, quatro anos mais tarde recebeu um convite irrecusável de uma universidade da Califórnia.

Lá, casou com uma americana de família tradicional com quem teve três filhos, mulher de temperamento enérgico, fanática pela organização metódica da rotina, que cuidava dos meninos e do lar como se o marido não existisse. Os afazeres domésticos, a educação dos meninos a cargo da esposa, a vida emocional sem sobressaltos e o talento como pesquisador permitiram que ele publicasse mais de 300 trabalhos científicos e realizasse a proeza de fazê-lo pelo menos uma vez por ano em revistas como “Cell”, “Science” ou “Nature”, nas quais publicar um único artigo durante a vida inteira é motivo de orgulho para qualquer mortal.

Então, aconteceu a viagem para a Conferência do Rio de Janeiro.

Na primeira noite, no saguão do hotel, quando estava prestes a se recolher, dois conterrâneos sugeriram o tal programa na Help. Cansado da viagem, John hesitou, mas a voz do destino falou mais forte.

Na confusão da boate, uma morena de saia justa, braços de fora e uma flor lilás no cabelo parou desafiadora diante dele, sorriu e tirou-o para dançar.

John quase perdeu a aula que deveria dar, no dia seguinte. No sábado, adiou por cinco dias a viagem de volta. Nos seis meses que se seguiram, veio três vezes para o Brasil, foi apresentado à família da moça na favela da Maré e aceitou todos os convites para congressos na Europa, com a única finalidade de encontrá-la, já que a moça não conseguia o visto do consulado americano.

Num domingo de manhã, John acordou com a casa em silêncio. Fez um café e foi para a janela ver a neve que revoava. O mundo estava branco, em ordem, e ele com o coração apertado de saudades do Brasil, da mulher que amava, da bagunça das ruas, do ritmo dos sambistas do Carioca da Gema, na Lapa, e do sexo com a morena, a experiência que jamais havia imaginado viver.

Quando o encontrei dois anos mais tarde num congresso internacional, contou que, naquele instante, diante da neve sentiu ter a vida uma dimensão desconhecida. Disse que a ex-esposa havia ficado furiosa com a separação e contratado o escritório de advocacia mais renomado de Los Angeles. Todos os bens do casal agora eram dela.

Ainda assim, estava feliz, como nunca na vida, casado com a morena.
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Autor:
Drauzio Varela
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Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2410200922.htm
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Publicado em: SinapsesLinks
http://sinapseslinks.blogspot.com/
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