Cíntia e Leonardo

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Baixo-astral

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Faxina contra o baixo-astral

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Neurocientista defende que atividades simples, como limpar o chão, combatem a depressão
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ERNANE GUIMARÃES NETO
DA REDAÇÃO (Folha de São Paulo)

Entre as os contestadores da cultura dos antidepressivos está Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia da faculdade Randolph-Macon, na Virgínia (EUA). Para ela, a resistência à depressão é algo a ser desenvolvido no trabalho cotidiano. Na entrevista abaixo, Lambert diz que existe um ciclo de “recompensas” associadas a atividades manuais.

Assim, a sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto do paciente, é acompanhada de substâncias que o deixam mais persistente. Ou menos depressivo, como defende em “Lifting Depression” (Suspendendo a Depressão, Basic Books, 288 págs., US$ 26, R$ 45).
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FOLHA – Sua pesquisa pode ser encontrada em artigos sobre como “fazer a faxina faz bem para a mente”. Esse é mesmo um dos melhores exercícios contra a depressão?
KELLY LAMBERT – Depende de quanto você valoriza a limpeza.
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FOLHA – Estamos acostumados à explicação de que exercícios produzem endorfinas que nos fazem sentir bem. Há muito mais que isso?
LAMBERT – Sim. Hoje temos uma prevalência da ideia de que a depressão é devida ao desequilíbrio químico relacionado à serotonina. É claro que a serotonina tem algum papel, mas questiono em meu livro se drogas têm alguma influência direta nas pessoas.
As drogas elevam o nível de serotonina no cérebro imediatamente, mas a maioria das pessoas não percebe melhora antes de um ou dois meses. Assim, examinei a atividade física como um ciclo de “recompensa adquirida pelo esforço”.
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FOLHA – Mas como podemos acompanhar o “circuito” desse sistema de recompensa no cérebro?
LAMBERT – Não sou clínica, sou uma neurocientista de ratos de laboratório. Resolvi abordar o problema como um mistério. “Vamos olhar os sintomas envolvidos na depressão”: há falta de recompensa, falta de concentração, movimentos lentos, problemas para dormir, alimentação desregulada. Um grande fator aqui foi relacionado a “prazer de recompensa”.
Quanto mais eu pesquisava o assunto, mais parecia haver um circuito envolvendo prazer, movimento e solução de problemas, que chamei de “circuito da recompensa adquirida pelo esforço”. Outra influência foi uma palestra de Martin Seligman, pai da psicologia positiva nos EUA, autor de livros sobre otimismo.
Ele falou sobre um estudo com pessoas nascidas até 1940 e criadas nos EUA. Eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Não faria sentido dizer que houve alguma mutação biológica que afetou nosso sistema de serotonina ou que nossos cérebros tenham mudado. O que mudou drasticamente no século 20 foi nosso estilo de vida. Estamos muito menos ativos, ficamos sentados ao computador para trabalhar -não trabalhamos como nossos ancestrais, nem mesmo como aqueles de 60 anos atrás.
Seligman observou outras culturas: populações agrárias chinesas centenas de vezes menos propensas à depressão. Nos EUA, temos o grupo religioso amish, que não usa eletricidade e produz sua própria comida. Eles têm menos depressão. Homens têm menos depressão -a taxa dobra entre as mulheres- porque são mais ativos, fazem mais atividades físicas, inclusive para desestressar.
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FOLHA – Pode explicar como foi feita sua pesquisa de laboratório?
LAMBERT – Fiz uma experiência com ratos para medir valores dessas recompensas adquiridas pelo esforço. Apelidamos alguns deles de “ratos pensionistas” -pois tinham “froot loops” [cereais adocicados] à vontade- e outros de “trabalhadores”, pois tinham de trabalhar para consegui-los, cavando o cereal de uma pequena caixa. Depois de seis semanas, fizemos um teste de persistência.
Demos a eles um problema insolúvel, mas muito simples: pusemos um brinquedo de plástico com uma rodelinha de cereal dentro. O cereal não seria acessível, não cairia lá de dentro. Medimos por quanto tempo eles tentavam pegá-lo.
Os ratos trabalhadores ficaram o dobro do tempo tentando. Eram mais confiantes. Em seus cérebros, percebemos a presença do neuropeptídeo Y. Vimos mais dele em áreas do cérebro envolvidas com estresse e ansiedade no grupo trabalhador. Estava ajudando em algo -talvez confiança, talvez resistência. Isso tem muito a ver com depressão, afinal se trata de desistir das coisas.
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FOLHA – Seu estudo definiu depressão como “falta de persistência”…
LAMBERT – Sim, mas estamos lidando com ratos, afinal de contas. A falta de vontade de continuar tentando é um elemento da depressão.
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FOLHA – E sua descoberta principal foi que não se trata de quão intenso é o esforço, mas sim de cumprir uma tarefa com sucesso?
LAMBERT – Trata-se de aonde leva o esforço, e não o que se faz. Por isso “recompensas adquiridas pelo esforço”. Para os ratos podem ser as rosquinhas, para os humanos o artesanato, a jardinagem. Atividades que usam as mãos são as mais relevantes, mas atividades físicas em si podem ser importantes também, por aumentarem as endorfinas e diminuírem os hormônios de estresse.
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FOLHA – Vencer num jogo eletrônico, por exemplo, ajuda?
LAMBERT – Pode ser melhor que nada. É mais importante interagir de forma “real” com o mundo. Mas o uso das mãos dá uma sensação de controle; se você tem prazer em atingir o que quer que o jogo dê como prêmio, pode ajudar.
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FOLHA – Seu livro oferece “libertação” do jugo dos antidepressivos?
LAMBERT – Se você já toma remédios, não é uma boa ideia simplesmente parar, pois sua neuroquímica foi alterada. Infelizmente, muitos médicos nem fazem exames para saber se o paciente está mesmo precisando de drogas. O paciente diz: “Estou com os sintomas do comercial”. Isso basta.
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FOLHA – Quando a sra. fala no trabalho de nossos antepassados funcionar para prevenir a depressão, quer dizer que essa é uma doença típica da sociedade atual?
LAMBERT – Não falávamos tanto sobre depressão no início do século 20, o que pode sugerir tratar-se também de uma questão de diagnóstico. Ficar triste é algo que sempre existiu. Mas nosso modo de vida mudou.
É verdade que a depressão pode ser algo bom em certos casos, como quando precisamos ficar quietinhos, porque estamos doentes, por exemplo. Provavelmente há um fator evolutivo nisso tudo, afinal não é bom ficar parado quando precisamos coletar recursos.
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Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1110200909.htm
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Publicado em: SinapsesLinks
http://sinapseslinks.blogspot.com/
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Nota:
Eudison de Paula Leal
Artesão – pirografia
http://sinapsesartes.blogspot.com/
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